Imprensa

- Música de intervenção cabo-verdiana reunida em disco histórico. -

Por Cabo Verde e pelo mundo

Nuno Pacheco

Ilustração do Kiki Lima

Depois de uma primeira edição reservada e ainda incompleta, em Agosto deste ano, o CD "Música de Intervenção Cabo-Verdiana" é hoje lançado em Lisboa com mais quatro canções e capa nova, da autoria do pintor Kiki Lima. A sessão, que decorrerá no Instituto Camões (ao Marquês de Pombal, em Lisboa), pelas 18h30, conta com a actuação dos cantores Celina Pereira, Ildo Lobo e Titina. Aí, à mesma hora, será inaugurada a exposição Musicalidade Pictórica, do pintor Kiki Lima. O produto da venda dos CD's e dos quadros reverterá a favor de Timor Lorosae.

Reunindo catorze temas de intervenção cabo-verdianos de diversas épocas, desde a II Guerra Mundial até à libertação de Timor, o disco "Música de Intervenção Cabo-Verdiana" é fruto da persistência do luso-caboverdiano Alberto Rui Machado, licenciado em engenharia e quadro de uma multinacional alemã, que já há vários anos sonhava com o projecto. "Havia uma série de músicas com uma letra muito interessante e música muito bonita que passaram despercebidas", diz ele ao PÚBLICO. Os problemas surgiram depois. "Tivémos que tirar as músicas directamente dos discos, não havia fitas disponíveis. E houve alguma dificuldade em saber quem eram os músicos acompanhantes, porque eles não punham os nomes nas capas, para os proteger. A PIDE chegou a proibir um disco que não tinha nada de contestatário, mas como a capa tinha um verso proibido..." Mais difícil ainda foi obter as autorizações para incluir certas canções no disco. De tal modo que ele acabou por ser lançado, com as canções disponíveis, em Agosto passado, para que uma das canções nele incluída, "Perguntem a Xanana" (ver caixa), cumprisse, mais uma vez, o seu destino, servindo de incentivo à participação dos timorenses no referendo pela independência do território.

Combater a dançar

À persistência de Rui Machado juntou-se o gosto e a arte de muitos músicos. O primeiro foi Ildo Lobo, dos Tubarões, que, contactado para adaptar a letra sobre Timor que Rui tinha escrito à música da canção "Djônsinho Cabral", concordou logo: "Eu abracei a questão incondicionalmente", recorda ele ao PÚBLICO. "Mas tinha que falar aos meus colegas. Eu costumo dizer que os Tubarões são a mais antiga democracia cabo-verdiana. E têm uma longa vida por causa disso. Eles concordaram e só tive que vir a Portugal fazer a adaptação no registo sonoro. Mas o interessante é que o tema original, 'Djônsinho Cabral', é mesmo revolucionário em termos sociais e reflecte a luta do camponês contra o proprietário, o dono das terras. Por isso achei muito interessante colar nele a causa de Timor."

Além disso, havia o ritmo irresistível da canção original. Ainda Ildo Lobo: "Essa canção ganhou tal impacto no meio cabo-verdiano que passou a ser o nosso cartão de visita. Uma vez um jornalista chamou ao 'Djônsinho Cabral' o ópio da música cabo-verdiana. Eu perguntei-lhe porquê e ele disse-me que me mostrava quando fôssemos à noite à discoteca (só havia uma, na Praia, nesse tempo). O disc-jockey punha músicas mexidas e ninguém se levantava. Até que ele pediu para pôr o 'Djônsinho Cabral' e foi o fim do mundo. Só nós dois é que ficámos sentados!"

"Quando a letra ficou pronta - diz Rui Machado - nós fomos almoçar com o Ramos-Horta para saber se ele concordava. Disse que sim, para avançarmos. Então disse-lhe que havia outro risco: quando a canção fosse tocada, as pessoas seriam tentadas a dançar. Ele disse: bom, se houver uma sala inteira a dançar ao som disso, acho que é a melhor homenagem que podem fazer ao povo timorense."

B. Léza contra Hitler

Depois de Ildo Lobo e dos Tubarões vieram, em gravações actuais, Titina, Celina Pereira, Maria Alice, Lura, Paulino Vieira, Kiki Lima. E muitos outros, arrancados à memória de outras épocas através da recuperação de gravações antigas: Luis Morais, Humbertona, Nhô Balta, Jacqueline, Anibal Monteiro e muitos outros.

O disco começa com duas canções recentes, ambas com letra de Rui Machado: "Perguntem a Xanana", dedicada a Timor, e "Saharawi" (a música é a mesma da "Sodade" celebrizada por Cesária Évora), dedicada à resistência do povo do Sara Ocidental, envolvido há anos num processo de autodeterminação face a Marrocos.

E, depois, há a história: uma canção que B.Léza escreveu em inglês contra Hitler, antes deste perder a guerra, e que só mais tarde traduziu para crioulo; outra dedicada por Nhô Balta, nos anos 60, ao assalto ao paquete Santa Maria e à ameaça que ele constituiu para a ditadura de Salazar; outra ainda, escrita por Manuel Faustino, ironizando com a chegada de Marcello Caetano ao poder em Portugal, "Nhô Keitóne". O assassinato de Amílcar Cabral, o Tarrafal, o 1º de Maio, inspiram outras tantas canções. Mas para que não se pense que a canção crítica terminou com a ditadura, há outras mais recentes. Rui Machado: "Uma delas é 'Terra bô sabé', do Renato Cardoso (assassinado em 1989) que é interpretada pelo Ildo Lobo e é crítica aos tempos do PAIGC; e há o 'Cumpáde Ciznóne', do Manuel d'Novas, que reflecte já contradições mais recentes, do tempo da democracia".

"As duas canções recentes acabam por servir de motor à divulgação das outras", diz Rui Machado, sublinhando uma evidência. Mas a herança musical e histórica reunida agora em disco constitui uma iniciativa pioneira que, começando com Cabo Verde, poderá um destes dias servir de exemplo à restante África lusófona.

"Ask Xanana": Canção Cumprida

Foto: Ildo Lobo A canção "Ask Xanana" tem uma história atribulada. O projecto ganhou corpo num congresso de quadros cabo-verdianos, em 1994, onde Ramos-Horta esteve como observador. Rui Machado, que era da comissão organizadora, recorda: "Quis propôr um voto de silêncio pelos mortos em Timor, mas não teve consenso. Disseram-me que não se podia misturar política com o congresso, que era apolítico, podia parecer mal". Mas se o voto não passou, já o mesmo não se pode dizer da canção "Ask Xanana". Rui tinha a letra esboçada (em inglês, pois a ideia era sensibilizar a comunidade internacional) e Ramos-Horta achou boa ideia. Daí até à concretização foi um passo. Ildo Lobo e os Tubarões concordaram e a gravação fez-se em 1996. Ildo lembra: "Tínhamos acabado de assinar contrato com a Sons d'África para reeditar os discos dos Tubarões e convencemos o dono da gravadora a inserir o tema no disco com o 'Djônsinho Cabral'. E começou a ter popularidade. As pessoas ouvem a versão original e depois no fim têm a versão adaptada, que era só em inglês". Nessa altura foi feito um videoclip, já com apoio da RTP, que o usou várias vezes no 10 de Junho. Rui arranjou forma de legendá-lo gratuitamente e disseminá-lo pelo mundo com a ajuda da diáspora cabo-verdiana. "Em 1997 todas as televisões europeias receberam cópias. Algumas devolveram, disseram que não tinham programas adequados àquilo."

Foto: Rui MachadoEm 1999 a canção volta a ser gravada, mas desta vez com a letra em português e parte em tétum. Rui Machado diz que "foram gravadas duas versões, mas só uma é que saiu. A outra era um bocado mais dura. Dizia assim: 'Os indonésios invadiram Timor-Leste/ mataram patriotas, praticaram chacinas/ e p'ra calar quem o invasor conteste/ criaram agora milícias assassinas.' Juntei-me com um elemento da resistência timorense e ele aceitou. Mas depois achou-se que isso poderia irritar as milícias, se lá chegasse, e acabei por ir para a versão mais soft, que está no disco."

"Quando fiz a canção - explica Rui Machado - havia quatro linhas de força principais: libertar Xanana, que estava preso; conseguir mudar a postura da Austrália e para isso pus em relevo os cinco australianos que tinham sido mortos em Balibó; puxar os americanos para o lado dos timorenses e por isso eu citava os casos do Kuwait, do Noriega e das ilhas Malvinas; e, por fim, o Suharto, que na minha opinião era preciso denunciar como ditador. A segunda versão teve outras alterações: há a intervenção da NATO e no Kosovo e eu dizia: Kosovo muito bem, mas se Díli é Kosovo todos os dias porque é que não vão lá? Havia pessoas amigas que me diziam: pões aqui o Suharto, mas se ele um dia sai de lá a canção perde actualidade. Eu respondia-lhes: pois se perder actualidade essa é a maior satisfação que eu posso ter."

E a satisfação chegou, finalmente. A canção perdeu em actualidade o que ganhou em testemunho histórico e todos os que nela se empenharam, ao longo dos anos, podem agora dizer: canção cumprida.

Lisboa, 22 de Novembro de 1999 Jornal Público


A. Rui Machado, entrevistado no "Latitudes".

Entrevista ao A. Rui Machado no programa "Latitudes" da RTP África, a propósito do CD "Lisboa nos Cantares Cabo-verdianos"

topo